Tribuna do Sudoeste

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Diretor-Presidente Sebastião Barbosa da Silva

                                            ANO 8 - Nº 473

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Bezerros são os grandes alvos da tristezinha

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O período chuvoso é um momento propício ao aparecimento da tristeza parasitária bovina (TPB), mais conhecida como tristezinha, que tem sua incidência aumentada nesta época do ano pelo fato de a mudança climática favorecer a proliferação de carrapatos e moscas  - os principais vetores da doença. A tristezinha atinge principalmente os animais fracos e com baixa resistência, a exemplo dos bezerros que se encontram nos primeiros meses de vida. Por ainda não terem o sistema imunológico completo, esses animais se tornam mais vulneráveis à instalação dos agentes infecciosos.
De acordo com o médico veterinário Juliano Aquino, os principais sintomas da doença são febre alta, acima de 40º, emagrecimento repentino, apatia, anorexia, pelos arrepiados, coração acelerado, ausência de ruminação dentre outros. “É comum também que as mucosas fiquem mais pálidas ou amareladas e o animal tenha anemia. A tristezinha deve ser rapidamente tratada, pois ela pode matar”, explica Aquino. Outro aspecto reforçado pelo veterinário é que a falta do colostro contribui para aumentar a prevalência da enfermidade entre os animais jovens, porém, a tristezinha pode ocorrer em qualquer idade.
O colostro é o primeiro leite secretado pela vaca logo após o parto, sendo produzido por aproximadamente três dias consecutivos. Com isso, os bezerros dependem dele para adquirirem imunidade até que o próprio organismo comece a produzir os anticorpos. A tristeza parasitária bovina pode ser diagnosticada com base em sinais clínicos ou exames laboratoriais: “Detectada a doença, o tratamento é feito com antibióticos e medicamentos contra os efeitos colaterais da tristezinha, sempre sob acompanhamento de especialistas”, completa Aquino.
O veterinário explica que alguns cuidados ajudam a prevenir o aparecimento da doença e manter o controle do carrapato durante todo o ano. “É preciso diminuir a incidência, mas o animal mais jovem deve ter o contato com o parasita para se tornar imune. Ou seja, uma medida importante é não erradicar os carrapatos do pasto”, conta. A tristeza bovina é um complexo que compreende duas enfermidades, sendo a babesiose, causada por protozoário, e a anaplasmose. As doenças acarretam grandes prejuízos econômicos pela queda na produção de leite, diminuição do ganho de peso além dos gastos para o controle da tristezinha.
A doença é conhecida também por outros nomes como pindura, mal da ponta, piroplasmose e mal triste. Em todo o País a tristezinha é vista como uma das enfermidades que mais mata bezerros que estão nos primeiros meses de vida. Por isso, os animais devem ser avaliados constantemente para que seja possível um diagnóstico precoce da doença. É importante observar também o peso do animal durante o tratamento para evitar subdosagem ou a superdosagem de medicamentos.

Custo com tratamento é superior ao de prevenção

Proprietário da fazenda Mata Grande, distante 69 quilômetros do município de Rio Verde, o produtor rural Sandoval Bailão Fonseca Filho tem alguns exemplos de animais que foram atingidos pela tristezinha em sua fazenda. Ele aponta que, em um mesmo lote, o animal que já teve a doença apresenta claramente os resultados do desenvolvimento comprometido em função da enfermidade. “Fica sendo o pior bezerro de todos e, quando crescer, será também a pior vaca do rebanho”, reforça o produtor.
Com isso, ele completa que o animal nunca chegará à fase adulta sendo um bom produtor de leite, por exemplo. Fonseca Filho acrescenta que é possível perceber os que já tiveram a tristeza bovina até mesmo pela diferença de pelagem. “O grande problema da tristezinha é que, se ela não for bem curada, as consequências são ainda maiores. Animais da mesma idade e do mesmo grupo de desmama poderão ter características totalmente diferentes”, explica.
O produtor conta que todas as fazendas que possuem bezerros têm a doença: “O que acontece é que algumas pessoas não sabem que é a tristeza bovina e ficam tratando como se fosse outra doença. O fato é que onde tem carrapato o risco é muito grande”, considera. Filho cita como exemplo uma propriedade que conheceu recentemente, localizada na cidade de Cristalina. De acordo com ele, de um total de 30 tourinhos, 20 estavam com medicação para o combate da tristezinha. “Houve um surto na propriedade, eu nunca tinha visto uma incidência tão grande”, diz o produtor.
O bezerro que não tem a doença cresce outro animal, sendo mais saudável, desenvolvido e com ganho de peso. “Ele pode chegar aos 14 meses com cerca de 350 quilos, podendo ser inseminado e se tornar um grande produtor de leite”, explica Filho. O produtor lembra que para diminuir ao máximo a quantidade de carrapatos no pasto, ele utiliza um trator para roçagem, diminuindo também as áreas de sombra. “Os causadores da doença, quando em contato com o sol, são mais facilmente exterminados. Temos que ter todos os cuidados possíveis”, afirma. O índice de tristezinha é maior no período chuvoso pelo fato de o carrapato estar em momento de maior reprodução.
Além disso, Filho lembra que uma doença leva à outra. Primeiro o animal possui a tristezinha, em seguida, em função da baixa imunidade, surge também diarreia, pneumonia e outras. “Já tivemos muitos casos de enfermidade na propriedade, mas de uns tempos para cá estamos conseguindo controlar melhor. Para acabar de vez com o carrapato o tratamento deve ser contínuo. Se o controle estratégico for interrompido, o causador da doença volta e se reproduz muito rápido”, conta.
O bezerro funciona como uma isca, já que 5% do carrapato está no animal e os outros 95% na pastagem. “A doença aparece também em cavalos, ovinos, mas os que mais sentem são os bezerros por serem menores e sensíveis. Hoje na minha propriedade temos 200 animais. Do total, apenas um está com a doença e já em fase de tratamento”, afirma. Uma das estratégias adotadas pelo produtor é o controle dos nascimentos, em que se evita o mesmo a partir do mês de novembro. “Com isso diminuímos os casos de mastite no curral, causadas pelo excesso de barro no período das águas, e também não se tem o bezerro tão novo durante as chuvas. Assim, os nascimentos são programados para até novembro e depois de março”, esclarece Filho.
O erro de grande parte dos produtores é justamente no controle do carrapato. De acordo com Filho, “todos os produtores fizeram um super carrapato ao longo dos anos pelo uso incorreto dos produtos. Com isso nós os qualificamos e hoje são necessárias doses dobradas para acabar com os vetores da tristezinha”, analisa. Além disso, os custos com o tratamento são muito superiores aos de prevenção, conforme afirma o produtor. “Já tivemos na propriedade uma taxa de mortalidade acima de 12%, sendo que trabalhávamos com um valor em torno de 5%. É uma situação que não pode acontecer, e a melhor saída é detectar logo a doença e sempre estar atento à prevenção”, finaliza.

Última atualização em Dom, 18 de Novembro de 2012 12:37

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